Terminei, após tanto tempo, Triste Fim de Policarpo Quaresma.
Admito que gostei. Bastante até. Comecemos logo a falar do romance. Policarpo Quaresma é um pacato funcionário público. Sempre agindo corretamente, a ponto de a vizinhança usar sua pontualidade como relógio. Mas havia um “problema”: seu amor à pátria. Quaresma lia tudo sobre o seu país, conhecia muito fauna, flora, geografia, história, enfim tudo sobre a nação. Lia. O que parecia ser um absurdo para alguém que não seria doutor ou algo do gênero na época. “Para quê a leitura?” perguntavam-se as pessoas. Além disso, começou a aprender violão. Daí surge um dos personagens interessantes da narrativa: Ricardo Coração dos Outros. O trovador representa a camada pobre da sociedade carioca/brasileira da época. Pouco reconhecido (não no sentido de apreciado, afinal, chega até a fazer algum sucesso) por sua profissão, ensina o major a arte da música. Além dele, temos Olga, a afilhada do major, que representa em certos momentos o que pensava Lima Barreto. Temos também Ismênia, que enlouquece por não ter se casado. Há aqui a crítica ao matrimônio, ao medo de não ficar “para tia”, a necessidade de se casar e manter uma imagem perante a sociedade. Temos Bustamante e Albernaz que, apesar de militares, nunca haviam participado de uma guerra. Temos a irmã de Policarpo, bondosa, atenciosa e sempre preocupada com o irmão e suas ideias, Adelaide, há também o negro Anástacio que trabalha com o major na fazenda. E outros, como Genelício, Coleoni, que representam várias camadas da classe média da época.
Quanto ao enredo, se divide em três partes:
Primeiramente, Policarpo é caracterizado, assim como outros personagens, há a festa de noivado de Ismênia, são mostrados os estudos do major sobre o país, o folclore, as culturas indígenas(tomando aulas de violão com Ricardo, lendo, etc) e sua criação de um projeto para que a língua oficial do país deixe de ser o português e passe a ser o Tupi. Tido como louco e a ideia como ridícula, acaba indo para um manicômio.
Na segunda parte, Policarpo deixa o manicômio e vai para o campo, onde se dedica a atividade rural, ao cultivo, à exploração de “uma das terras mais férteis do mundo. Nova decepção, com a destruição das plantações por parte das saúvas (que me lembraram MUITO de “Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são” lido em Macunaíma, de Mário de Andrade”) e as dificuldades para vender o que se produz, além das multas por parte dos políticos que ele não concordou em ajudar.
A terceira e última parte mostra a participação de Quaresma e de outros personagens na Revolução Armada e o triste fim do personagem. Mostra a desilusão do protagonista e outras coisas que é melhor não comentar para evitar um spoiler.
Marcado pelo intenso humor-ácido ao nacionalismo, Lima Barreto revoluciona com a ideia de que “o Brasil é o país do futuro”, de todas as ideias de que um dia ainda será uma grande potência, etc. Alguns pontos marcantes são a loucura de Ismênia, todas as ideias de Policarpo (incluindo receber a afilhada e seu pai ao melhor estilo Tupinambá: chorando e se descabelando. Observação: a professora de literatura confirmou: Lima Barreto realmente pesquisou e esse fato é real, o costume tupinambá realmente existe/existiu, porém não tão exagerado como Quaresma faz) e, sem dúvida nenhuma, a carta que Quaresma manda à irmã quando está preso, logo no final da narrativa.
Aí temos a total desilusão do personagem. Uma frase que marcou certamente foi: “Ninguém compreende o que quero, ninguém deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo, maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade.”
A carta em si já vale por toda a narrativa. Adicionando-se a ela a narrativa a estereotipação das personagens, as críticas, o humor, então, temos um clássico.
Sobre a continuidade dos livros: vou evitar ler tão precocemente “O Cortiço” para evitar o que aconteceu com Germinal (dizer até que eu não li…). Lerei, portanto “Apanhador No Campo de Centeio” e, depois, quem sabe, Leite Derramado
Você, Quaresma, é um visionário…
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