Pequenas observações sobre Vidas Secas:
Graciliano Ramos escreve palavras como “Sinha” ou “catinga” por pura opção sua. Pesquisadores do autor afirmam que ele assim o fazia para que fosse possível uma maior aproximação do modo de falar nordestino miserável. Essa tentativa de aproximação é típica do movimento literário ao qual a obra Vidas Secas pertence, o modernismo, que prega um total desapego à cultura europeia, a não ser que essa seja, antes, “digerida” (daí vem o movimento antropofágico divulgado pelos modernistas). Outro exemplo desse desapego e tentativa de aproximação com outras culturas é Macunaíma, de Mário de Andrade, obra na qual o autor usa diversos vocábulos tupi-guaranis. Além disso, na obra Vidas Secas, por pertencer à segunda fase desse movimento, tem como objetivo mostrar os problemas sociais do país. No caso, a vida do sertanejo, sendo explorado tanto pelo meio em que vive como pelas pessoas com quem convive. A caatinga judia Fabiano e sua família, o Soldado Amarelo prende injustamente o protagonista, o patrão distorce as contas e diminui o salário. Outro fato interessante para mostrar esses problemas do nordestino é a desumanização das personagens humanas e a humanização de Baleia, a cachorrinha da família. Fabiano se comunica muito melhor com os animais do que com os humanos, como vemos em: “Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. (…) Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural que o companheiro entendia.. (…) Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma linguagem que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias.” (p. 20). Isso explica porque Fabiano pode falar por meio de onomatopeias. É tão desumanizado que fala com os animais através dos sons que essas criaturas produzem e, o pior de tudo, é compreendido muito melhor do que se conversasse com um humano. Através dessas e outras características, Graciliano faz um retrato fiel da vida do nordestino da época, mostrando todas as dificuldades do povo. São essas opções e criações de personagens, feitas tão fantasticamente, que tornam livros como Vidas Secas uma obra-prima.
De volta a Graciliano
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